Quase tão antiga quanto a própria Santa Casa é a devoção de quem passa por ali a Nossa Senhora das Dores. Embora não se saiba em que exato momento ela foi escolhida como uma das padroeiras na instituição, é certo que em 1817 já havia registros de celebrações em honra à Santíssima Mãe, contando inclusive com um comitê organizador especial.
Exatos dois séculos mais tarde, celebrações parecidas voltam a acontecer em homenagem à Virgem. O objetivo é resgatar práticas tradicionais, enaltecer atividades religiosas e fortalecer laços comunitários.

Está aí, aliás, outra coincidência interessante. A origem da Santa Casa é profundamente associada à caridade e à união comunitária. Em 2017, ano em que a Festa de Nossa Senhora das Dores voltou a acontecer, ambos princípios se destacaram mais uma vez. Afinal, a maior entidade filantrópica do Campo das Vertentes comemorou uma conquista histórica: a complementação de recursos para adquirir novos equipamentos e implementar o serviço de Radioterapia no Centro de Tratamento Oncológico (CTO) graças à mobilização popular.

Centenário

As celebrações em honra a Nossa Senhora das Dores são retomadas no momento emblemático em que a capela que leva seu nome se aproxima do centenário, em 2018. Tudo isso sendo cenário de buscas, análises, restaurações e catalogações de acervos documentais e materiais.

“Foi nesse processo que encontramos papéis antigos mencionando a festa e descrevendo toda a importância dela nos séculos passados. Embora os registros sejam esparsos e muito ainda deva ser encontrado, sabemos por enquanto que os festejos em honra a Nossa Senhora das Dores ocorreram na Santa Casa até pelo menos 1856”, explica o pesquisador e auxiliar voluntário no setor de Arquivos da instituição, Roberto Boscolo, em referência a documentações que listam gastos e nomes envolvidos.

Mas deixa uma lacuna sobre como eram os rituais e a liturgia das celebrações.

Pesquisa e organização

“Descobrimos que, na realidade, a paróquia dedicava dois momentos do ano a Nossa Senhora das Dores: um durante a Quaresma e outro nas proximidades de 15 de setembro, em que a Igreja Católica a homenageia oficialmente. Não havia qualquer descrição, no entanto, sobre o que exatamente acontecia nos festejos”, acrescenta o professor e também pesquisador voluntário na Santa Casa, Pedro Paulo Corrêa.

Para remontar o cronograma da festa religiosa, portanto, a dupla contou com inferências históricas envolvendo desde os rituais comuns nas celebrações da época até caracteres culturais. Dentre eles, trechos proferidos em latim e a presença de músicos encantando, com vozes e melodias, as manifestações dos fiéis.