De Casa de Caridade a Santa Casa. De pioneira na aplicação de vacinas contra a varíola a importante centro de Oncologia no Estado. De ousada na instalação de uma Escola de Parteiras a referência em UTI Neonatal em toda a macrorregião do Campo das Vertentes.

Em quase três séculos de trajetória, serviços, doação, desafios e superação, a Santa Casa da Misericórdia, em São João del-Rei, se firma como instituição de saúde com funcionamento ininterrupto e transformação constante. Tudo para deixar uma única mensagem a diferentes gerações: as portas seguem abertas, a comunidade pode contar conosco e essa história se reescreve todos os dias protagonizada por profissionais que lutam por ela.


Da lenda à História

Uma lenda antiga, lembrada pelo historiador Luís de Melo Alvarenga, conta que no final do século XVIII, um homem de trajes simples pisou em solo da então Vila de São João del-Rei. Ele pedia esmolas em nome da caridade e seria – dizem os contadores de causos – um ex-cafetão que, sedento por ouro nessas bandas de Minas Gerais, havia prometido a alma ao diabo. Após sofrer castigos infernais, o tal homem havia se convertido em nome de Nossa Senhora das Dores e prometido à santa que faria apenas o bem.

Coisas da criatividade popular. A História, registrada e confirmada, dá outros tons a esse enredo. Nele, o ermitão Manuel de Jesus Fortes fundou em São João uma Casa de Caridade. O ano era 1783 e o Brasil ainda era colônia portuguesa quando, naquela instituição, todos os pobres passaram a ser recebidos e cuidados. Tudo isso através de recursos financeiros vindos de doações da comunidade.


O começo

Naquela época, 30 leitos foram criados para esse fim. E se multiplicaram aos poucos até que, em 1816, a entidade foi convertida oficialmente em Santa Casa da Misericórdia, onde já atuava o médico Antônio Felisberto da Costa. Três anos depois, ela já oferecia, também, atendimento aos chamados “pensionistas”, em iniciativa que ajudou a bancar e aperfeiçoar os serviços oferecidos à população carente.

Em constante aperfeiçoamento, a Santa Casa abriu, em 1820, sua própria farmácia. O espaço foi deixado aos cuidados do boticário José da Rocha Neves. Não demorou para que o objetivo de remediar os males do corpo levasse a instituição ao pioneirismo: em 1826, São João del-Rei já contava com vacinas contra varíola, vindas diretamente de Londres e aplicadas por ninguém menos que o Dr. George Such.

Às portas dos anos 30, em 1829, nova página de destaque foi escrita nessa história, com o desembarque do francês Gabriel André Maria de Poesquellec. O médico, formado pela Universidade de Paris, foi contratado para ensinar lições de “obstetrícia” na instituição. De acordo com as também historiadoras Maria Leônia Resende e Natália Silveira, esse foi, possivelmente, o primeiro curso voltado a partos da Província de Minas Gerais.

Não parou por aí. A Santa Casa chegou a ostentar, por volta de 1888, uma estrutura pronta para tratamentos em Hidroterapia. Já não restaram dúvidas de que era essencial para o Campo das Vertentes.


Século XX

Exatamente por isso, para abarcar a grandiosidade de serviços e de demandas que já sustentava, passou por sua primeira reforma em 1910.

Quatro anos depois, abriu as portas da Maternidade. No final da década de 30, novo salto histórico: a instituição passou a contar com exames de Raio-X. O marco foi instituído exatos cinco anos antes de outro fato histórico ter a Santa Casa como cenário. Foi lá que a primeira cirurgia cardíaca de São João del-Rei aconteceu, em 1946. Naquele ano, o Dr. Ivan de Andrade Reis salvou um paciente ferido por bala ao realizar “sutura do músculo cardíaco”.

Dr. Ivan de Andrade Reis era um dos médicos que compunham um corpo clínico diferenciado e amplamente crescente desde os anos 30. Dentre os nomes de destaque, os do Dr. Euclides Garcia de Lima e do Dr.Cid Rangel.

Em breve, novos capítulos dessa história.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVARENGA, Luís de Melo. História da Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei. Belo Horizonte: Formato, 2009.

CINTRA, S. de O. Efemérides de São João del-Rei. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1982.

RESENDE, Maria Leônia Chaves de Resende; SILVEIRA, Natália Cristina. Misericórdias da Santa Casa:um estudo de caso da prática médica nas Minas Gerais oitocentista. In: História Unisinos. jan-abr.2006, p.05-13.