“Consegue ver essa portinhola aqui no chão?”, pergunta Roberto Boscolo, apontando para um quadradinho com pouco mais de 80 centímetros quadrados no piso da Capela de Nossa Senhora das Dores. “Debaixo dele há um porão. E lá estão os restos mortais do fundador da Santa Casa, Manuel Fortes”, completa.

Com propriedade de quem conhece cada página escrita na história da instituição, Boscolo reconta a trajetória da maior entidade filantrópica do Campo das Vertentes. E o faz com a maestria e o cuidado de quem, como guardião do passado, garante raízes importantes para o futuro.

É assim desde 1988, quando decidiu voluntariamente recuperar, organizar e proteger todo o acervo documental e parte do instrumental da Casa de Saúde. Resgatou, com isso, uma coleção inteira de louças e ferramentas utilizadas pelo antigo laboratório farmacêutico; salvou registros, atestados, portarias, certidões e cartas. Uma delas, assinada por ninguém menos que D. João IV em 1816, transformando a então Casa de Caridade em Santa Casa da Misericórdia.

Em outro bloco encadernado, recheado de páginas com fibras de tecido, a caligrafia de D. Pedro II confirma visita dele à cidade em 1881, durante inauguração da Estrada de Ferro Oeste de Minas.

Há, ainda, documentos listando detalhadamente os serviços de caridade prestados a quem vivia em situação de vulnerabilidade social (incluindo refeições a escravos, órfãos e presidiários pobres); e apontamentos sobre personalidades importantes que passaram pela irmandade da Santa Casa, como Joaquim Natividade, o gênio da pintura com afrescos em igrejas e capelas locais.

Por falar nisso, impossível desenvolver uma pauta sobre história, Santa Casa e tradição sem tocar em religiosidade. Na entidade são-joanense, aliás, a fé é uma característica latente.


Padroeiros

A Santa Casa de São João del-Rei tem três padroeiros. Um deles é São João de Deus, representado por imagem de quase 2 metros instalada na recepção da entidade. A obra, associada a Mestre Cajuru e esculpida por volta de 1700, foi uma das primeiras conhecidas no mundo inteiro e representa o santo português que abandonou a carreira militar para auxiliar os pobres.

Ao doar todos os bens e se dedicar ao atendimento dos desvalidos, João foi considerado louco e jogado em um manicômio, onde vivenciou os horrores do preconceito, dos maus tratos e do sofrimento. Ali, reuniu forças para defender, mais tarde, as populações enfermas, construindo um retiro e um hospital para acolhê-las. Não por outro motivo, foi declarado pelo Papa João Paulo II como “Padroeiro das Casas de Saúde”, celebrado no dia 8 de março.

Como não poderia deixar de ser, Nossa Senhora das Dores também ocupa o posto de protetora da instituição são-joanense. “A primeira imagem dela, de roca, é do início do século XVIII. Essa informação, na realidade, é a única que temos sobre a santa, já que não sabemos a origem exata dela, que se encontra hoje na Igreja das Mercês. Uma segunda representação, de madeira, está no altar da Igreja de São Gonçalo. Por fim, fomos presenteados com a que está na capela da Santa Casa hoje. Ela veio da França há mais de cem anos”, explica Boscolo sobre a padroeira homenageada no dia 15 de setembro.

Quem seria, afinal, o terceiro padroeiro? “São José”, responde rapidamente o auxiliar de conservação e restauração. E completa: “Além de ser protetor da própria Igreja e dos trabalhadores, é peça importante da Sagrada Família e, junto a Maria, protege as nossas”, frisa apontando a imagem do santo também trazida da França no início do século XX para compor o altar.