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Uma história de amor. Aliás, de três amores. Não há forma melhor de resumir a implantação da Pediatria mais próxima dos moldes atuais na Santa Casa da Misericórdia. O primeiro amor foi de um político à cidade natal e às causas da saúde. O segundo, de um pediatra à profissão. O terceiro, por fim, é o amor da esposa por esse médico, sendo capaz de abdicar da própria trajetória para apoiá-lo.
E foi exatamente por causa de histórias como esta que a mortalidade infantil em São João del-Rei caiu pela metade já no início dos anos 60. Pouco antes, a cidade chorava a perda de 150 crianças para cada mil nascidas. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse índice é de apenas uma morte.
“Eu queria viver para presenciar o dia em que chegaremos a zero óbitos. Seria maravilhoso pensar que conseguimos salvar todas as vidas. Mas não somos Deus. Só podemos agradecer a Ele por termos chegado tão longe e por termos transformado esses números”, comenta o pediatra Euclides Garcia de Lima Filho, mais conhecido como Doutor Tidinho. Um dos protagonistas dessa história.
Pedido
Em 1957, Euclides era um jovem recém-formado pela Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, hoje pertencente à UFRJ. Nessa época, Tancredo Neves era deputado federal e o chamou para uma reunião de emergência. “Lembro bem da forma como ele me contou algo que o havia marcado durante visita a São João: ‘Olha, Tidinho, passei o fim de semana na cidade e vi passarem três enterros de anjinhos. Procurei saber o que estava acontecendo e descobri que não há pediatras na cidade desde que o Doutor Roosevelt se aposentou’”, relembra Tidinho sobre discurso que antecipou um convite: “Você não quer trabalhar lá?”.
Na época, o pediatra era recém-casado com o eterno amor, Laís, uma professora de inglês em instituição tradicional carioca. “Vir embora significava fazê-la abrir mão da carreira, se afastar da família. Mas ela me surpreendeu dizendo que iria para onde eu fosse”, conta o médico.
Sonho realizado
Apesar disso, o ‘sim’ a Tancredo só veio com uma condição: que oferecessem a Tidinho toda a estrutura necessária para trabalhar. “Eu estava vindo para a cidade com a missão de lutar contra a mortalidade infantil. Sem uma clínica, incubadoras, espaço para internação e respiradores era como me mandar para um campo de batalhas sem armas. Disse exatamente isso para o Doutor Tancredo e ele entendeu. Dias depois, ligou dizendo que havia conseguido doações de um amigo empresário para garantirmos um imóvel. Já era um começo”, ri o são-joanense.
E foi assim que no início dos anos 60 um prédio inteiro foi construído para o setor, bem próximo ao tradicional Cine Glória. Em 1964 ele foi inaugurado. Mas… “Não havia equipamentos. Doutor Tancredo e eu passamos horas debatendo sobre
isso e pensando em possibilidades. Foi então que ele deu uma olhadinha para a sala de espera cheia de gente que queria falar com ele e avistou o presidente de uma confederação industrial na época. Conversou com ele e conseguiu os recursos. Assim, nessa simplicidade que estou contando”, revela Tidinho.
Foi então, já em meados dos anos 60, que a Pediatria se desenvolveu efetivamente, somando-se à chegada de novos pediatras ao município. Era o início da Clínica Infantil Sinhá Neves e a consolidação de um corpo clínico-referência. “Lembro da chegada do Doutor Luiz Neves até hoje, por exemplo. Ele foi um dos grandes parceiros para darmos continuidade à luta pela Pediatria no município. Se temos uma UTI Neonatal, devemos a ele”.
Dedicação
Atualmente, a Clínica Infantil Sinhá Neves funciona em novo complexo, conta com sete pediatras e atende pelo menos 1,4 mil pequenos, todos os meses, de toda a região. “Eu gosto de ver o brilho nos olhos dos profissionais que estão lá hoje. Gosto de pensar que as crianças estão bem cuidadas, recebendo a atenção de gente que ama o que faz. Décadas atrás, nós ouvíamos o choro de bebês à beira da morte e de famílias despedaçadas. Hoje, a gente escuta o chorinho das crianças com dores que sabemos ser possíveis de contornar e que todo mundo luta para fazerem sarar. Não há dinheiro que pague o sorriso de um pequenino saudável. Não há”.